domingo, 6 de maio de 2018

O primeiro encontro



O primeiro encontro numa gira no ilê, foi com o senhor Zé. 
Para a minha pessoa, que nunca vira nada assim a este calibre, foi curioso a minha postura, sabia apenas que essas situações aconteciam, mas nunca tinha visto de perto ninguém a incorporar dessa forma. 



Houve canções que os filhos da casa cantavam a volta do zelador do terreiro, com empenho na voz, e do nada o homem que estava na minha frente começou a mexer-se de forma estranha, a curvar-se de forma ainda mais estranha, a balançar, a dar uns curtos saltos, e ninguém parava de cantar. 

Assumi que seria normal, apenas uma filha da casa aproximou-se mas nada fez, do nada o zelador solta um som estranho, não sei o que era, foi a um canto do espaço e depois a outro, e nem percebi bem o que estava a acontecer. 


Pensei, isto será tipo filmes de terror, onde existe possessão a pessoa se entorta toda e depois fala línguas estranhas. 

Era o que pensava.. mas todos começaram a dizer boa noite sr. Zé e eu disse igual, mas ainda não estava entendendo bem a situação. 


Posso jurar que era o mesmo homem que estava na minha frente, mas falava com uma voz diferente. Nem olhei para os olhos estava a tentar entender como era suposto nos comportamos, e todos fizeram uma roda e o senhor zé foi pedindo a sua bebida o seu cigarro, o que foi provenciado de imediato. 

Algumas filhas mostravam-se risonhas, e eu sem saber como reagir. E a conversa foi se desenrolando sobre machos, machos, machos, homens, homens, homens... eu estava a achar tão aborrecido... 


Vejamos, temos uma entidade superior presente, e vamos perder tempo a falar de homem X ou de homem Y, ou qual o melhor ou qual o pior... Não estava a entender a conversa... E estava meia decepcionada por a conversa ter tomado essa direção...

Mas de qualquer das formas, mantive o máximo respeito que tinha, tentando não pensar tanto que aborrecido era a conversa, com medo que o sr. Zé lesse o meu pensamento. 

Tentei pensar em flores, em rios, em tanta coisa, mas quanto mais pensava para não pensar que era aborrecido, mais isso acontecia. 

Até que o senhor zé virou-se para mim e falou diretamente para mim, algo que não estava a espera... 

"Você minha filha, é nova, veio de tão longe encontrar o perto"


Estremeci um pouco por dentro, mas consegui responder um "é verdade", e fiquei assim. Olhei finalmente para os seus olhos, e procurava algo que me dissesse é mesmo uma entidade que está aqui, é mesmo sério isto, como posso ter a certeza... eram tantas perguntas na minha mente, e eu a tentar não pensar, estava apavorada que o senhor zé lesse a minha mente.. Mas não conseguia parar de pensar como poderia ter a certeza de estar mesmo uma entidade na minha frente...

E comecei a falar com o sr. Zé o nome, o que estava ali fazendo, até que ele se vira e do nada me diz que eu era a única que não estava a procura de macho para me sustentar. Fiquei perplexa não apenas pelas palavras, mas pela intensidade delas, pelo olhar, por tudo, parecia ali uma sensação diferente, mas ainda não estava convencida.

Respondi que realmente não procurava nada disso, não tinha intenção de ficar mais uma hora a falar de machos ou sequer de aspirantes a namorados ou assim... E quando menos esperava, a minha lingua destravou de tal maneira, e comecei a falar exatamente o que pensava. Que era super aborrecido estarem apenas a falar sobre homens e homens e homens... E o sr. Zé olhando para mim com meio sorriso me respondeu que era o que as pessoas ali presentes mais gostavam de saber, e sem conseguir travar a língua ainda sem qualquer controle, respondi que desperdício. 


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