terça-feira, 31 de julho de 2018

Segunda gira da esquerda

Estive presente numa segunda gira, também esta de esquerda.
Aprendi muita coisa que não sabia, ensinado pela entidade do meu pai, Maria mulambo, a mesma que eu tenho.

Existem pontos certos para todos os momentos, não é a vontade de cada um.

Existe pontos que são para abrir uma gira. Depois há ordem, não se canta alternadamente entre pomba giras e exus e novamente pomba giras.

O correto é começar com uma energia e só depois partir para outra.

Desta vez estávamos apenas três pessoas a cantar, e nenhuma de nós soube manter o pinto. Não basta querer apenas desenvolver a nossa entidade e aparecer na hora marcada, é necessário muito mais que isso. Saber segurar os pontos, não ficar no mesmo uma vida inteira, não ficar inventando desculpas ou acusando um ou outro elemento.
A banda toca em conjunto, unida e não cada um por si.

Aprendi também que existem pontos para fechar a gira. 
Nada é por acaso, tudo tem um sentido.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Menina de vermelho

Houve uma festa na casa do meu pai, todos íamos jantar lá.

Uma irmã minha, tem um  casal de filhos. Uma menina e um menino, com menos de 7 anos.

Eu entrei na casa e eles passaram a correr por mim, felizes brincando. Logo atrás uma menina de cabelos encaracolados com um casaquinho vermelho, muito bonito parecia veludo. Cheia de caracóis perfeitos. Também ela ia muito feliz rindo muito.

Cheguei a sala de jantar pedi a bênção ao meu pai e cumprimentei todos.
Não via ninguém que eu não conhecesse. E estranhei de quem seria a menina. Passado algum tempo curiosa perguntei.
Todos ficaram olhando para mim, até que alguém me perguntou qual menina a L. ? Eu respondi que era a menina que estava brincando com eles, de casaco vermelho.

Todos disseram que não havia nenhuma menina assim. Fiquei pensando que estavam brincando comigo.. essa criança tinha passado por mim correndo atrás dos outros dois meninos.
Ainda insisti duas vezes, depois fiquei em silêncio. Ela estava lá realmente mas não para o olho de todos...
Até a hora de ir embora não a vi mais..

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Sombra de mulher

A poucas semanas, numa segunda-feira estava empenhada em aprender os pontos das entidades. Estava a cantar pontos, umas vezes mais alto, outras vezes mais desafinada. Mas estava concentrada. 

Estava deitada no sofá a enviar os audios para o grupo do meu terreiro. Deitada cantava cantava cantava.. 

Sentei-me no sofá e continuei a cantar. Era ponto de pomba-gira, e estava a sentir que a cabeça estava ficando um pouco atordoada, mas pensei para mim, que não estando no terreiro nada se passaria. Continuei cantando até que num ponto que estava gravando para o grupo, pus-me em pé, sem qualquer razão.

Não sei, levantei-me. E nesse preciso momento olhei em frente, e tinha uma sombra de mulher na minha frente no escuro da minha sala. Mas essa sombra era diferente do resto. Acho que devo ter dito ui ui ui, e recuei até a cozinha. 


Ela tinha a mão nas quartinhas, mas não sei quem era. Quando em segundos voltei já não estava. 

Não estava a espera de a ver ali.. Depois optei por dar uma pausa nos pontos nessa noite. 



Não senti nenhuma emoção, nenhuma reação, nada. Só sei que era uma sombra de mulher com as mãos nas quartinhas. 

Aprendi algo novo também, se na gira quando alguém tem óculos retiram, eu que uso lentes de contacto devo fazer o mesmo. Não sabia, e como as lentes não são vistas, as pessoas que estão a tomar conta de nós, esquecem-se. 



Sobre a sombra, seria a minha mulambo? Seria outra entidade? Não tenho como saber..

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Um homem de Cartola

Uma vez estava a chegar ao ilê e ao passar na primeira porta, vi um homem. Ele estava do lado de fora do portão, eu estava nas escadas a olhar para ele. Não consegui ver totalmente o seu rosto, mas via o seu sorriso. Apenas isso, o resto o enorme chapéu tapava tudo. 
Vi esse senhor, a entrar e a sair do portão, sem sequer abrir o mesmo, ele atravessava literalmente o portão como se o portão não estivesse lá. 

Fez isso algumas vezes, até que começou a vir na minha direção. 

Não tive medo, estava num espaço sagrado, só estava curiosa. Quem seria? O que queria?

Sentei-me no primeiro degrau. Ele sentou-se ao meu lado direito. Não sei quanto tempo estivemos ali sentados, nem sei quanto tempo estivemos a conversar. 

Senti que estava a ser observada, mas não me conseguia mexer, não me conseguia levantar. Continuei não sei por mais quanto tempo, até sentir um desprendimento do chão. Não sei de que outra forma explicar.. Foi quando me levantei e olhei para a porta, e o meu bàbá estava olhando para mim.....
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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Linha da direita

Dentro de poucos dias vou ter a minha primeira gira da linha da direita. 

Acho curioso esta separação, linha da esquerda e linha da direita. 

Será por os da linha da esquerda serem mais emoção e os da direita mais razão? Não tenho ideia porque se chama dessa forma. 

A linha da direita, segunda a última entidade que esteve presente, nem todas as pessoas carregam, mas acredita que eu carrego uma cabocla. 

Quando eu perguntei qual seria, obtive uma resposta do género de não ser dicionário e não saber tudo, nem ter uma listagem completa dos nomes do que todos carregamos. 

Bem, então falta agora esperar por este final de semana, para descobrir se sinto alguma coisa ou nem por isso. Até posso nem sentir, mas entre nós, que me cativam os caboclos cativam. Sempre me cativaram <3

Na verdade, o que sempre me cativou, foram os índios, caboclo ao vivo nunca vi. Boiadeiros também não. Aliás só vi, como já contei aqui, uma gira de marinheiros. Mas pouco percebia na altura. 

Então, uma vez mais, eu vou sem saber como será, o que é suposto acontecer ou não, e acho isso tão bom. 

Sem expectativas, mente tranquila coração aberto. <3

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A minha primeira gira de desenvolvimento - última parte

"E começaram a cantar de novo.. mas algo estava diferente... o que estava a sentir estava a ser diferente... o meu movimento não era girar, e na minha cabeça eu tinha que girar, mas não conseguia, o movimento era também este diferente... "

Desta vez eu senti-me a andar para trás, apenas uma vez senti-me a inclinar para baixo e girar dessa forma, e alguém segurou-me no peito e fez-me estar reta.
Não me senti sensual, poderosa, senti-me diferente. Com um ar pesado, uma respiração pesada, em vez de movimentos leves a minha mão estava rígida e a dobrar-se toda, mas não tinha dor, nem desconforto. 

Mas estava tranquila, em todas os momentos, não entrei em pânico, não pensei que iria morrer, talvez por ter sido a primeira vez. A inocência de não saber o que vai acontecer nem como ajuda tanto. 

Ora ouvia as músicas, ora elas não faziam sentido, não entendia a letra, mas sei que estavam a cantar. 

A dada altura ouvi uma irmã dizer-me para ajoelhar, mas as palavras dela fugiram-me da cabeça. Não sei explicar, nada ficou, é como entrasse a informação a 100 e saísse a 1000. Mas quando ouvi a voz da ekedji com a mesma ordem para ajoelhar. Foi diferente. Essa informação ficou retida no meu cérebro, apenas não a conseguia executar, até que a ekedji orientou-me e quando dei por mim, estava no chão ajoelhada a beber água. 

Entretanto cantaram para a pombagira que estava no salão subir, eu ainda estava tentando normalizar-me, e quando apercebi já estavam cantando para o senhor zé, e veio lindo como sempre. 

E cantaram, cantaram e eu estava com vontade de ir dançar também com ele, mas consegui controlar-me. Era um restinho de vontade "não minha", mas não era suficiente para fazer-me ir. Mas senti uma puxadinha. 

Cantaram o senhor zé cumprimentou a todos, e quando me cumprimentou eu acho que fiz a vénia mas estúpida da minha vida. Parecia uma menininha a puxar a saia para os lados e como se fizesse um "plie" do ballet, a inclinar-me toda para a frente. Não sei de onde isso surgiu, mas foi muito inesperado. 

Passado algum tempo, subiu. 


No fim ajudei a limpar o salão, a retirar as decorações, e fomos todos jantar juntos.

Ainda fiquei durante um bom tempo agoniada com a sensação de vómito, mas sentia-me tão bem por dentro que não há palavras para explicar. 
Mal posso esperar pela próxima..

segunda-feira, 2 de julho de 2018

A minha primeira gira de desenvolvimento - parte II

Continuando a história.
Ainda agora, um pouco mais de 24 horas, ainda estou a absorver tudo o que se passou e principalmente o que senti.

Entretanto já conversei com o meu mais velho, e já me respondido que todos estavam a roda e todos seguraram em mim. 

Então ou senti alguma coisa que estava ali em carne ou algo que era uma entidade, não sei mesmo. Sei que sentia a girar-me, sentia-me a ser segurada, e como se estivesse a ser equilibrada e do nada vinha com uma força diferente. 
Definitivamente quero sentir de novo, quem dera que fosse já hoje. 


Não me recordo como acabou essa parte, sei que também sentei ao lado da minha irmã. E sentia-me pesada, mal disposta, achei que ia vomitar, nesse momento nem sei o que era pior, o estômago embrulhado a cabeça estranha. 

Quando olhei para o lado, chegou a pomba gira de uma pessoa mais velha. E foram se sentar bem do outro lado do salão, onde me obrigavam a levantar ou arrastar-me e ir para esses lados. Mas não estava fácil, era incomodo, aí fui encostei-me a parede. Ai que parede maravilhosa, segurava a minha cabeça. E estava a uma temperatura agradável. A pomba gira falou, e algumas coisas não ficaram na minha mente, terei que posteriormente perguntar aos meus mais velhos.

Bebi água, pois dizem que ajuda, eu até a beber a água estava com dificuldade, mas bebi. Conversamos sobre algumas coisas, e faltava mais uma irmã minha rodar. 

Ficamos a roda dela, a cantar, e estava mesmo preocupada com ela, para ela não ir contra nada, e começaram a cantar um ponto de pomba gira, lasquei-me. 

Eu queria ajudar, e sentia os meus joelhos a dobrarem, como se tivessem molas, o meu corpo a ceder, e voltava a tentar me concentrar na minha irmã, e voltava a acontecer-me, afastei-me um pouco, encostei-me na parede não sei durante quanto tempo, e os joelhos eram como molas... 

Eu queria controlar o que estava acontecendo, porque não era a minha vez, era a vez da minha irmã, e eu precisava de estar "normal" para poder ajudar.. 



E não estava fácil..... tentava sempre voltar a ajudar, mas não conseguia, fui para o outro lado do salão, não que eu quisesse fugir, mas para mim não era a minha vez, e tinha que ajudar, mas não conseguia controlar, não conseguia, e do nada fui tomada. Não é algo que eu sinta a entrar dentro de mim, mas também não sei explicar de onde vem. Comecei a girar novamente e nesse momento não consegui ter um único pensamento. A cabeça vazia e a dançar... Senti uma gargalhada saindo de mim. Senti e ouvi. Não foi assustadora, nem dolorosa, fluiu assim como por magia.

Senti-me tão bem, tão segura, tão poderosa, durante esses momentos. Não sei explicar ainda essa sensação. Sentia-me a girar, e algumas vezes ficava como se suspensa no ar, vou comparar-me a um pião. O pião gira gira sem parar, e anda a volta, mas chega a um momento que ele fica fixo no lugar e parece parado. Eu sentia-me assim, parada mas com a cabeça confusa. Sentia alguém a rodar-me nesses momentos que eu parava, e voltava a girar e ficar torta e sei lá mais o que. 

Acredita que foi nessa altura que cai novamente, não tenho a certeza.

Nem sei bem como terminou, novamente, há coisas que ficam confusas e não sei precisar..
Depois veio outra pausa para conversar com pombagira, ou talvez nem tenha sido bem essa ordem.
Mas sei que veio uma "terceira vaga". Eu olhei para a pombagira pensando nossa de novo, eu estou exausta, gostei, mas tinha que ser tudo de uma vez? A pomba gira respondeu ao meu pensamento que era para passar toda o mal estar de uma vez e lá se fez a roda a minha volta novamente... 

E começaram a cantar de novo.. mas algo estava diferente... o que estava a sentir estava a ser diferente... o meu movimento não era girar, e na minha cabeça eu tinha que girar, mas não conseguia, o movimento era também este diferente... 

                                                                      Continua.....