Hoje foi a minha primeira gira de desenvolvimento.
Nos últimos dias preparei de acordo com as indicações que me foram dadas, nada de álcool, nada de carnes vermelhas, não entrar em discussões, andar com roupas claras, entre outras.
E fui me mentalizando, imaginava cenários com uma árvore específica, imaginava paz, tranquilidade. Mas nada me preparou para como seria.
Imaginava que talvez nem acontecesse nada, mas por outro lado imaginava que poderia acontecer.
Sentimentos confusos, mas não me senti ansiosa, nem com medo.
A hora marcada fui tomar os banhos, vesti a roupa e preparei-me para a gira.
Não sabia como seria, não tinha a menor ideia do que era suposto acontecer. Então entreguei-me sem pensar em nada do que estava a acontecer a volta.
Começaram algumas músicas em que estavamos numa grande roda, senti-me bem, senti-me tranquila, entreguei-me ao momento, mas não posso dizer que não senti algo mas também não posso dizer que senti alguma coisa. Foi estranho, envolvi-me nas letras na roda mas foi apenas isso.
Ai chamaram primeiro uma irmã minha, e acabamos por fazer uma roda a volta dela, sempre sempre orientada pelo meu zelador, que estava ao lado dessa minha irmã, senti-me impressionada ao ve-la. Foi um pouco assustador, ok, na verdade nem é essa a palavra correta, a palavra correta é foi angustiante, deu-me impressão parecia que ela ia se virar de dentro para fora... eu vi-a a agarrar-se ao coração a garganta, e com uma cara de tanta aflição, o meu zelador sempre com ela, a ekedji a tocar o adja, não consegui aproximar-me, fiquei um pouco afastada, tentando manter os olhos fechados para não ver, mas eu ouvi-a.. fez-me tanta confusão ela parecia mesmo aflita, e continuavam cantando para o esu meia noite, eu balançava de um lado para o outro, mas não queria ver o que se estava a passar, até que a uma dada altura o meu zelador, fez sinal para eu me aproximar da roda, hesitante lá fui eu...
Deu-me muita muita impressão. Depois fizeram-na sentar um pouco num canto, e na minha cabeça passou um breve pensamento "eu não imaginava que era assim, acho que não quero que me aconteça isso". Não tive tempo de desenvolver mais pensamentos... o meu baba deu-me sinal para eu ir para o meio, e começaram a cantar para Mulambo. Eu pensei pode ser que nem sinta nada, pode ser que não aconteça algo. Não porque eu queria que fosse assim, mas talvez por uma falsa segurança para eu não deixar o medo apoderar-me. Mas foi tão rápido que eu nem tive tempo de ter medo, de pensar em mais besteiras, em nada. Sabia que se queria desenvolver teria que entregar-me sem receios, sem "ques", simplesmente deixar-me ir.
Começaram a cantar, fui baloiçando, fechei os olhos e entreguei-me.
Neste momento ainda é um pouco confuso conseguir explicar tudo, ainda me sinto agoniada, e com um peso na cabeça, mas não consigo dormir...
Como dizia, entreguei-me, e os meus movimentos deixaram de ser meus, na verdade eram meus e não eram. Sei onde estava, com quem estava, mas algo tomava conta dos meus movimentos, do meu corpo por assim dizer, já não era dona dos meus movimentos, senti-me a cambalear, senti-me a ter as pernas tipo borracha, senti-me a não ter controle no que fazia, e nesse momento não consegui pensar em nada, em absolutamente nada, foi tão sem aviso, foi tão sem estar a contar, deixei de pensar no que tinha visto acontecer a minha irmã, nem consegui visualizar cenário nenhum, estava como em branco, só cambaleando, e de repente senti-me a girar.
É tão difícil conseguir explicar isso... Era eu a girar e não era, estou a tentar me lembrar da sensação, mas não sei descrever. Não era incomoda, não era dolorosa, nem angustiante, apenas sentia-me leve, feliz... Bem leve, e olhem que não sou nada magrinha..
Rodei rodei e rodava, isso é o que me lembro, ora ouvia a letra, ora deixava de a entender embora a ouvia, mas continuava mexendo-me de forma não minha, até que escorreguei e cai.
Abri os olhos e pensei terminou, devo ter quebrado a ligação, mas pensei em um segundo, não me deram tempo, fizeram-me levantar, rodearam-me na mesma, continuaram a cantar, eu fechei os olhos, entreguei-me sem pensar, e penso, que passado pouco tempo, voltou a acontecer o mesmo. Sentia-me a rodar,e sentia-me sensual, não sei se posso dizer essa palavra. Não sei se posso dizer isso sobre uma entidade, perdoem-me se for incorreto, mas senti-me mesmo sexy e leve.. e ainda feliz. Uma felicidade estranha, mas feliz. Houve uma altura que parecia que não estava a entender bem o que devia fazer, ou talvez estivesse a desconectar-me, nem sei se isso é possível. Mas não sabia onde por as mãos, pareciam duas borrachas a contorcerem-se e não sabia o que fazer com elas. Na volta nem
é suposto saber.
Sei que sentia o meu coração a bater muito forte, como se estivesse exausta, mas era mais do que isso, não era só físico era algo maior.
Continuei a girar, tenho quase a certeza que o meu baba se encostou em mim algumas vezes, se não foi ele, não sei.
O mais curioso é que quando encostava-me a ele, parava de girar, mas não deixava de sentir alguma coisa, uma das vezes senti-me a tremer toda, e senti os meus ombros a tremerem, não sei o que acontecia para isso, talvez estivesse a orientar-me, mas não lembro de ele dizer alguma coisa, eu penso que não. Mas senti, podia jurar que era o meu baba, e cada vez que encostava em mim, era como se algo mais forte tomasse conta de mim. Imaginem a sensação de por segundos estar levitando no ar, e do nada ser invadida por uma onda mais forte. Era mais ou menos assim...
É muito confuso conseguir explicara sensação, é confuso consegui explicar o que sentia, como foi.
Só sei que definitivamente não era eu a inventar, sei que não era coisa da minha cabeça, mas também fiquei a pensar se eu estaria a entender bem o que era para fazer, se estaria a deixar a entidade conectar-se bem comigo. Lembro-me de sentir um sorriso nos lábios, lembro-me de sentir tão leve...
Foi tão estranho e bom ao mesmo tempo. A uma altura que me sentia a girar sem parar, sei que tive um rápido receio de cair, porque sentia-me tão cambaleante, mas nem tive tempo de chegar a desenvolver esse medo, escapou-se de mim, continuei a girar, a entortar-me toda, a não saber o que fazer com as mãos, e a continuar a sorrir e sentir-me leve.
Hoje ficarei por aqui, porque a minha cabeça está mesmo pesada, e mesmo que esteja sem sono, tenho que me ir deitar, acho que é o correto.
Só para concluir, eu não senti que ia morrer, nem foi angustiante como a minha irmã, senti sim o coração a sair pela boca, tive alguma tosse mas nada que se comparasse, e estava completamente encharcada em suor.
E fiquei surpreendida de sentir tudo isso, pensei que não seria assim, imaginei que seria de outra forma, como por exemplo, um black out, em que não me lembraria de nada, e que demoraria a acontecer algo ou que iria bloquear.. Quem não sabe, é assim, vamos aprendendo.
E fiquei surpreendida de sentir tudo isso, pensei que não seria assim, imaginei que seria de outra forma, como por exemplo, um black out, em que não me lembraria de nada, e que demoraria a acontecer algo ou que iria bloquear.. Quem não sabe, é assim, vamos aprendendo.
Amanhã termino de contar o que mais aconteceu...
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