terça-feira, 31 de julho de 2018

Segunda gira da esquerda

Estive presente numa segunda gira, também esta de esquerda.
Aprendi muita coisa que não sabia, ensinado pela entidade do meu pai, Maria mulambo, a mesma que eu tenho.

Existem pontos certos para todos os momentos, não é a vontade de cada um.

Existe pontos que são para abrir uma gira. Depois há ordem, não se canta alternadamente entre pomba giras e exus e novamente pomba giras.

O correto é começar com uma energia e só depois partir para outra.

Desta vez estávamos apenas três pessoas a cantar, e nenhuma de nós soube manter o pinto. Não basta querer apenas desenvolver a nossa entidade e aparecer na hora marcada, é necessário muito mais que isso. Saber segurar os pontos, não ficar no mesmo uma vida inteira, não ficar inventando desculpas ou acusando um ou outro elemento.
A banda toca em conjunto, unida e não cada um por si.

Aprendi também que existem pontos para fechar a gira. 
Nada é por acaso, tudo tem um sentido.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Menina de vermelho

Houve uma festa na casa do meu pai, todos íamos jantar lá.

Uma irmã minha, tem um  casal de filhos. Uma menina e um menino, com menos de 7 anos.

Eu entrei na casa e eles passaram a correr por mim, felizes brincando. Logo atrás uma menina de cabelos encaracolados com um casaquinho vermelho, muito bonito parecia veludo. Cheia de caracóis perfeitos. Também ela ia muito feliz rindo muito.

Cheguei a sala de jantar pedi a bênção ao meu pai e cumprimentei todos.
Não via ninguém que eu não conhecesse. E estranhei de quem seria a menina. Passado algum tempo curiosa perguntei.
Todos ficaram olhando para mim, até que alguém me perguntou qual menina a L. ? Eu respondi que era a menina que estava brincando com eles, de casaco vermelho.

Todos disseram que não havia nenhuma menina assim. Fiquei pensando que estavam brincando comigo.. essa criança tinha passado por mim correndo atrás dos outros dois meninos.
Ainda insisti duas vezes, depois fiquei em silêncio. Ela estava lá realmente mas não para o olho de todos...
Até a hora de ir embora não a vi mais..

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Sombra de mulher

A poucas semanas, numa segunda-feira estava empenhada em aprender os pontos das entidades. Estava a cantar pontos, umas vezes mais alto, outras vezes mais desafinada. Mas estava concentrada. 

Estava deitada no sofá a enviar os audios para o grupo do meu terreiro. Deitada cantava cantava cantava.. 

Sentei-me no sofá e continuei a cantar. Era ponto de pomba-gira, e estava a sentir que a cabeça estava ficando um pouco atordoada, mas pensei para mim, que não estando no terreiro nada se passaria. Continuei cantando até que num ponto que estava gravando para o grupo, pus-me em pé, sem qualquer razão.

Não sei, levantei-me. E nesse preciso momento olhei em frente, e tinha uma sombra de mulher na minha frente no escuro da minha sala. Mas essa sombra era diferente do resto. Acho que devo ter dito ui ui ui, e recuei até a cozinha. 


Ela tinha a mão nas quartinhas, mas não sei quem era. Quando em segundos voltei já não estava. 

Não estava a espera de a ver ali.. Depois optei por dar uma pausa nos pontos nessa noite. 



Não senti nenhuma emoção, nenhuma reação, nada. Só sei que era uma sombra de mulher com as mãos nas quartinhas. 

Aprendi algo novo também, se na gira quando alguém tem óculos retiram, eu que uso lentes de contacto devo fazer o mesmo. Não sabia, e como as lentes não são vistas, as pessoas que estão a tomar conta de nós, esquecem-se. 



Sobre a sombra, seria a minha mulambo? Seria outra entidade? Não tenho como saber..

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Um homem de Cartola

Uma vez estava a chegar ao ilê e ao passar na primeira porta, vi um homem. Ele estava do lado de fora do portão, eu estava nas escadas a olhar para ele. Não consegui ver totalmente o seu rosto, mas via o seu sorriso. Apenas isso, o resto o enorme chapéu tapava tudo. 
Vi esse senhor, a entrar e a sair do portão, sem sequer abrir o mesmo, ele atravessava literalmente o portão como se o portão não estivesse lá. 

Fez isso algumas vezes, até que começou a vir na minha direção. 

Não tive medo, estava num espaço sagrado, só estava curiosa. Quem seria? O que queria?

Sentei-me no primeiro degrau. Ele sentou-se ao meu lado direito. Não sei quanto tempo estivemos ali sentados, nem sei quanto tempo estivemos a conversar. 

Senti que estava a ser observada, mas não me conseguia mexer, não me conseguia levantar. Continuei não sei por mais quanto tempo, até sentir um desprendimento do chão. Não sei de que outra forma explicar.. Foi quando me levantei e olhei para a porta, e o meu bàbá estava olhando para mim.....
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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Linha da direita

Dentro de poucos dias vou ter a minha primeira gira da linha da direita. 

Acho curioso esta separação, linha da esquerda e linha da direita. 

Será por os da linha da esquerda serem mais emoção e os da direita mais razão? Não tenho ideia porque se chama dessa forma. 

A linha da direita, segunda a última entidade que esteve presente, nem todas as pessoas carregam, mas acredita que eu carrego uma cabocla. 

Quando eu perguntei qual seria, obtive uma resposta do género de não ser dicionário e não saber tudo, nem ter uma listagem completa dos nomes do que todos carregamos. 

Bem, então falta agora esperar por este final de semana, para descobrir se sinto alguma coisa ou nem por isso. Até posso nem sentir, mas entre nós, que me cativam os caboclos cativam. Sempre me cativaram <3

Na verdade, o que sempre me cativou, foram os índios, caboclo ao vivo nunca vi. Boiadeiros também não. Aliás só vi, como já contei aqui, uma gira de marinheiros. Mas pouco percebia na altura. 

Então, uma vez mais, eu vou sem saber como será, o que é suposto acontecer ou não, e acho isso tão bom. 

Sem expectativas, mente tranquila coração aberto. <3

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A minha primeira gira de desenvolvimento - última parte

"E começaram a cantar de novo.. mas algo estava diferente... o que estava a sentir estava a ser diferente... o meu movimento não era girar, e na minha cabeça eu tinha que girar, mas não conseguia, o movimento era também este diferente... "

Desta vez eu senti-me a andar para trás, apenas uma vez senti-me a inclinar para baixo e girar dessa forma, e alguém segurou-me no peito e fez-me estar reta.
Não me senti sensual, poderosa, senti-me diferente. Com um ar pesado, uma respiração pesada, em vez de movimentos leves a minha mão estava rígida e a dobrar-se toda, mas não tinha dor, nem desconforto. 

Mas estava tranquila, em todas os momentos, não entrei em pânico, não pensei que iria morrer, talvez por ter sido a primeira vez. A inocência de não saber o que vai acontecer nem como ajuda tanto. 

Ora ouvia as músicas, ora elas não faziam sentido, não entendia a letra, mas sei que estavam a cantar. 

A dada altura ouvi uma irmã dizer-me para ajoelhar, mas as palavras dela fugiram-me da cabeça. Não sei explicar, nada ficou, é como entrasse a informação a 100 e saísse a 1000. Mas quando ouvi a voz da ekedji com a mesma ordem para ajoelhar. Foi diferente. Essa informação ficou retida no meu cérebro, apenas não a conseguia executar, até que a ekedji orientou-me e quando dei por mim, estava no chão ajoelhada a beber água. 

Entretanto cantaram para a pombagira que estava no salão subir, eu ainda estava tentando normalizar-me, e quando apercebi já estavam cantando para o senhor zé, e veio lindo como sempre. 

E cantaram, cantaram e eu estava com vontade de ir dançar também com ele, mas consegui controlar-me. Era um restinho de vontade "não minha", mas não era suficiente para fazer-me ir. Mas senti uma puxadinha. 

Cantaram o senhor zé cumprimentou a todos, e quando me cumprimentou eu acho que fiz a vénia mas estúpida da minha vida. Parecia uma menininha a puxar a saia para os lados e como se fizesse um "plie" do ballet, a inclinar-me toda para a frente. Não sei de onde isso surgiu, mas foi muito inesperado. 

Passado algum tempo, subiu. 


No fim ajudei a limpar o salão, a retirar as decorações, e fomos todos jantar juntos.

Ainda fiquei durante um bom tempo agoniada com a sensação de vómito, mas sentia-me tão bem por dentro que não há palavras para explicar. 
Mal posso esperar pela próxima..

segunda-feira, 2 de julho de 2018

A minha primeira gira de desenvolvimento - parte II

Continuando a história.
Ainda agora, um pouco mais de 24 horas, ainda estou a absorver tudo o que se passou e principalmente o que senti.

Entretanto já conversei com o meu mais velho, e já me respondido que todos estavam a roda e todos seguraram em mim. 

Então ou senti alguma coisa que estava ali em carne ou algo que era uma entidade, não sei mesmo. Sei que sentia a girar-me, sentia-me a ser segurada, e como se estivesse a ser equilibrada e do nada vinha com uma força diferente. 
Definitivamente quero sentir de novo, quem dera que fosse já hoje. 


Não me recordo como acabou essa parte, sei que também sentei ao lado da minha irmã. E sentia-me pesada, mal disposta, achei que ia vomitar, nesse momento nem sei o que era pior, o estômago embrulhado a cabeça estranha. 

Quando olhei para o lado, chegou a pomba gira de uma pessoa mais velha. E foram se sentar bem do outro lado do salão, onde me obrigavam a levantar ou arrastar-me e ir para esses lados. Mas não estava fácil, era incomodo, aí fui encostei-me a parede. Ai que parede maravilhosa, segurava a minha cabeça. E estava a uma temperatura agradável. A pomba gira falou, e algumas coisas não ficaram na minha mente, terei que posteriormente perguntar aos meus mais velhos.

Bebi água, pois dizem que ajuda, eu até a beber a água estava com dificuldade, mas bebi. Conversamos sobre algumas coisas, e faltava mais uma irmã minha rodar. 

Ficamos a roda dela, a cantar, e estava mesmo preocupada com ela, para ela não ir contra nada, e começaram a cantar um ponto de pomba gira, lasquei-me. 

Eu queria ajudar, e sentia os meus joelhos a dobrarem, como se tivessem molas, o meu corpo a ceder, e voltava a tentar me concentrar na minha irmã, e voltava a acontecer-me, afastei-me um pouco, encostei-me na parede não sei durante quanto tempo, e os joelhos eram como molas... 

Eu queria controlar o que estava acontecendo, porque não era a minha vez, era a vez da minha irmã, e eu precisava de estar "normal" para poder ajudar.. 



E não estava fácil..... tentava sempre voltar a ajudar, mas não conseguia, fui para o outro lado do salão, não que eu quisesse fugir, mas para mim não era a minha vez, e tinha que ajudar, mas não conseguia controlar, não conseguia, e do nada fui tomada. Não é algo que eu sinta a entrar dentro de mim, mas também não sei explicar de onde vem. Comecei a girar novamente e nesse momento não consegui ter um único pensamento. A cabeça vazia e a dançar... Senti uma gargalhada saindo de mim. Senti e ouvi. Não foi assustadora, nem dolorosa, fluiu assim como por magia.

Senti-me tão bem, tão segura, tão poderosa, durante esses momentos. Não sei explicar ainda essa sensação. Sentia-me a girar, e algumas vezes ficava como se suspensa no ar, vou comparar-me a um pião. O pião gira gira sem parar, e anda a volta, mas chega a um momento que ele fica fixo no lugar e parece parado. Eu sentia-me assim, parada mas com a cabeça confusa. Sentia alguém a rodar-me nesses momentos que eu parava, e voltava a girar e ficar torta e sei lá mais o que. 

Acredita que foi nessa altura que cai novamente, não tenho a certeza.

Nem sei bem como terminou, novamente, há coisas que ficam confusas e não sei precisar..
Depois veio outra pausa para conversar com pombagira, ou talvez nem tenha sido bem essa ordem.
Mas sei que veio uma "terceira vaga". Eu olhei para a pombagira pensando nossa de novo, eu estou exausta, gostei, mas tinha que ser tudo de uma vez? A pomba gira respondeu ao meu pensamento que era para passar toda o mal estar de uma vez e lá se fez a roda a minha volta novamente... 

E começaram a cantar de novo.. mas algo estava diferente... o que estava a sentir estava a ser diferente... o meu movimento não era girar, e na minha cabeça eu tinha que girar, mas não conseguia, o movimento era também este diferente... 

                                                                      Continua.....


domingo, 1 de julho de 2018

Minha primeira gira de desenvolvimento

Hoje foi a minha primeira gira de desenvolvimento.

Nos últimos dias preparei de acordo com as indicações que me foram dadas, nada de álcool, nada de carnes vermelhas, não entrar em discussões, andar com roupas claras, entre outras.

E fui me mentalizando, imaginava cenários com uma árvore específica, imaginava paz, tranquilidade. Mas nada me preparou para como seria.

Imaginava que talvez nem acontecesse nada, mas por outro lado imaginava que poderia acontecer. 
Sentimentos confusos, mas não me senti ansiosa, nem com medo. 

A hora marcada fui tomar os banhos, vesti a roupa e preparei-me para a gira. 

Não sabia como seria, não tinha a menor ideia do que era suposto acontecer. Então entreguei-me sem pensar em nada do que estava a acontecer a volta. 


Começaram algumas músicas em que estavamos numa grande roda, senti-me bem, senti-me tranquila, entreguei-me ao momento, mas não posso dizer que não senti algo mas também não posso dizer que senti alguma coisa. Foi estranho, envolvi-me nas letras na roda mas foi apenas isso.

Ai chamaram primeiro uma irmã minha, e acabamos por fazer uma roda a volta dela, sempre sempre orientada pelo meu zelador, que estava ao lado dessa minha irmã, senti-me impressionada ao ve-la. Foi um pouco assustador, ok, na verdade nem é essa a palavra correta, a palavra correta é foi angustiante, deu-me impressão parecia que ela ia se virar de dentro para fora... eu vi-a a agarrar-se ao coração a garganta, e com uma cara de tanta aflição, o meu zelador sempre com ela, a ekedji a tocar o adja, não consegui aproximar-me, fiquei um pouco afastada, tentando manter os olhos fechados para não ver, mas eu ouvi-a.. fez-me tanta confusão ela parecia mesmo aflita, e continuavam cantando para o esu meia noite, eu balançava de um lado para o outro, mas não queria ver o que se estava a passar, até que a uma dada altura o meu zelador, fez sinal para eu me aproximar da roda, hesitante lá fui eu... 


Deu-me muita muita impressão. Depois fizeram-na sentar um pouco num canto, e na minha cabeça passou um breve pensamento "eu não imaginava que era assim, acho que não quero que me aconteça isso".  Não tive tempo de desenvolver mais pensamentos... o meu baba deu-me sinal para eu ir para o meio, e começaram a cantar para Mulambo. Eu pensei pode ser que nem sinta nada, pode ser que não aconteça algo. Não porque eu queria que fosse assim, mas talvez por uma falsa segurança para eu não deixar o medo apoderar-me. Mas foi tão rápido que eu nem tive tempo de ter medo, de pensar em mais besteiras, em nada. Sabia que se queria desenvolver teria que entregar-me sem receios, sem "ques", simplesmente deixar-me ir. 
Começaram a cantar, fui baloiçando, fechei os olhos e entreguei-me. 
Neste momento ainda é um pouco confuso conseguir explicar tudo, ainda me sinto agoniada, e com um peso na cabeça, mas não consigo dormir... 
Como dizia, entreguei-me, e os meus movimentos deixaram de ser meus, na verdade eram meus e não eram. Sei onde estava, com quem estava, mas algo tomava conta dos meus movimentos, do meu corpo por assim dizer, já não era dona dos meus movimentos, senti-me a cambalear, senti-me a ter as pernas tipo borracha, senti-me a não ter controle no que fazia, e nesse momento não consegui pensar em nada, em absolutamente nada, foi tão sem aviso, foi tão sem estar a contar, deixei de pensar no que tinha visto acontecer a minha irmã, nem consegui visualizar cenário nenhum, estava como em branco, só cambaleando, e de repente senti-me a girar. 

É tão difícil conseguir explicar isso... Era eu a girar e não era, estou a tentar me lembrar da sensação, mas não sei descrever. Não era incomoda, não era dolorosa, nem angustiante, apenas sentia-me leve, feliz... Bem leve, e olhem que não sou nada magrinha.. 

Rodei rodei e rodava, isso é o que me lembro, ora ouvia a letra, ora deixava de a entender embora a ouvia, mas continuava mexendo-me de forma não minha, até que escorreguei e cai. 

Abri os olhos e pensei terminou, devo ter quebrado a ligação, mas pensei em um segundo, não me deram tempo, fizeram-me levantar, rodearam-me na mesma, continuaram a cantar, eu fechei os olhos, entreguei-me sem pensar, e penso, que passado pouco tempo, voltou a acontecer o mesmo. Sentia-me a rodar,e sentia-me sensual, não sei se posso dizer essa palavra. Não sei se posso dizer isso sobre uma entidade, perdoem-me se for incorreto, mas senti-me mesmo sexy e leve.. e ainda feliz. Uma felicidade estranha, mas feliz. Houve uma altura que parecia que não estava a entender bem o que devia fazer, ou talvez estivesse a desconectar-me, nem sei se isso é possível. Mas não sabia onde por as mãos, pareciam duas borrachas a contorcerem-se e não sabia o que fazer com elas. Na volta nem 


é suposto saber. 

Sei que sentia o meu coração a bater muito forte, como se estivesse exausta, mas era mais do que isso, não era só físico era algo maior. 


Continuei a girar, tenho quase a certeza que o meu baba se encostou em mim algumas vezes, se não foi ele, não sei.


O mais curioso é que quando encostava-me a ele, parava de girar, mas não deixava de sentir alguma coisa, uma das vezes senti-me a tremer toda, e senti os meus ombros a tremerem, não sei o que acontecia para isso, talvez estivesse a orientar-me, mas não lembro de ele dizer alguma coisa, eu penso que não. Mas senti, podia jurar que era o meu baba, e cada vez que encostava em mim, era como se algo mais forte tomasse conta de mim. Imaginem a sensação de por segundos estar levitando no ar, e do nada ser invadida por uma onda mais forte. Era mais ou menos assim...

É muito confuso conseguir explicara  sensação, é confuso consegui explicar o que sentia, como foi. 
Só sei que definitivamente não era eu a inventar, sei que não era coisa da minha cabeça, mas também fiquei a pensar se eu estaria a entender bem o que era para fazer, se estaria a deixar a entidade conectar-se bem comigo. Lembro-me de sentir um sorriso nos lábios, lembro-me de sentir tão leve... 

Foi tão estranho e bom ao mesmo tempo. A uma altura que me sentia a girar sem parar, sei que tive um rápido receio de cair, porque sentia-me tão cambaleante, mas nem tive tempo de chegar a desenvolver esse medo, escapou-se de mim, continuei a girar, a entortar-me toda, a não saber o que fazer com as mãos, e a continuar a sorrir e sentir-me leve.

Hoje ficarei por aqui, porque a minha cabeça está mesmo pesada, e mesmo que esteja sem sono, tenho que me ir deitar, acho que é o correto. 



Só para concluir, eu não senti que ia morrer, nem foi angustiante como a minha irmã, senti sim o coração a sair pela boca, tive alguma tosse mas nada que se comparasse, e estava completamente encharcada em suor.

E fiquei surpreendida de sentir tudo isso, pensei que não seria assim, imaginei que seria de outra forma, como por exemplo, um black out, em que não me lembraria de nada, e que demoraria a acontecer algo ou que iria bloquear.. Quem não sabe, é assim, vamos aprendendo. 

Amanhã termino de contar o que mais aconteceu... 

sábado, 2 de junho de 2018

Vislumbre de Mulambo

Já a algum tempo o meu Bàbá disse me que eu tinha uma pomba gira.. dona maria mulambo..

Já senti irradiação da sua energia, mas ainda não a incorporei.

Hoje no terreiro, ajudei o meu Bàbá.. eu só tinha que segurar uma vela e o seguir.

Fiz o meu papel concentrada com respeito ao sagrado.

Quando paramos, olhei para o meu lado...
E vi a mulambo, com cabelos negros soltos, vestes vermelhas, cara de um branco brilhante quase parecendo porcelana.. não consegui distinguir as feições.. e nem sei como sei que era mulambo...
Mas sei que era..
Foram segundos, o Bàbá pediu a vela, eu dei-lhe quando voltei a olhar já não estava ninguém ali...

Sinto-me desconfortável de falar sobre essas minhas visões, sobre essas situações que acontecem.. por serem diferentes..


Foram breves segundos, mas a senti séria..

Como explicar também que sei como ela se sentia?
Que atrevimento uma abian falar tão segura sobre isso...

A 5 dias que ela não me sai do pensamento e hoje a vi...

Tanta coisa para entender....

terça-feira, 15 de maio de 2018

Música no coração

Ainda ontem estava no meu ilê asé, e estava a ouvir os mais velhos a cantar pontos de legbaras.

Eu fico logo de orelha ao alto, e o corpo não quer parar de mexer. Se pudesse bailava sem parar. 


Sinto uma grande atração a essas músicas.

O corpo balança, os pés ficam leves, o tronco embala, é tão lindo. E nunca fui uma pessoa muito musical. 

É uma sensação de leveza, de querer dançar sem parar, e cada vez mais sentido-me mais leve. 



Será que chego até as nuvens? 

Fechar os olhos e sorrir com o som que entra nos ouvidos, sentir a melodia, esquecer o mundo que nos rodeia. 



É uma sensação que não sinto vindo de dentro de mim, não sei bem explicar, sinto vindo de fora mas ao mesmo tempo é dentro mas não no interior. É como uma aproximação de algo que nos faz embalar, mas não vem de dentro de mim, mas também não posso dizer que venha de fora. 

Não sei ainda explicar com palavras a sensação, mas sei que é bom sentir-me leve e deixar-me levar pela música no coração. 


domingo, 6 de maio de 2018

O primeiro encontro



O primeiro encontro numa gira no ilê, foi com o senhor Zé. 
Para a minha pessoa, que nunca vira nada assim a este calibre, foi curioso a minha postura, sabia apenas que essas situações aconteciam, mas nunca tinha visto de perto ninguém a incorporar dessa forma. 



Houve canções que os filhos da casa cantavam a volta do zelador do terreiro, com empenho na voz, e do nada o homem que estava na minha frente começou a mexer-se de forma estranha, a curvar-se de forma ainda mais estranha, a balançar, a dar uns curtos saltos, e ninguém parava de cantar. 

Assumi que seria normal, apenas uma filha da casa aproximou-se mas nada fez, do nada o zelador solta um som estranho, não sei o que era, foi a um canto do espaço e depois a outro, e nem percebi bem o que estava a acontecer. 


Pensei, isto será tipo filmes de terror, onde existe possessão a pessoa se entorta toda e depois fala línguas estranhas. 

Era o que pensava.. mas todos começaram a dizer boa noite sr. Zé e eu disse igual, mas ainda não estava entendendo bem a situação. 


Posso jurar que era o mesmo homem que estava na minha frente, mas falava com uma voz diferente. Nem olhei para os olhos estava a tentar entender como era suposto nos comportamos, e todos fizeram uma roda e o senhor zé foi pedindo a sua bebida o seu cigarro, o que foi provenciado de imediato. 

Algumas filhas mostravam-se risonhas, e eu sem saber como reagir. E a conversa foi se desenrolando sobre machos, machos, machos, homens, homens, homens... eu estava a achar tão aborrecido... 


Vejamos, temos uma entidade superior presente, e vamos perder tempo a falar de homem X ou de homem Y, ou qual o melhor ou qual o pior... Não estava a entender a conversa... E estava meia decepcionada por a conversa ter tomado essa direção...

Mas de qualquer das formas, mantive o máximo respeito que tinha, tentando não pensar tanto que aborrecido era a conversa, com medo que o sr. Zé lesse o meu pensamento. 

Tentei pensar em flores, em rios, em tanta coisa, mas quanto mais pensava para não pensar que era aborrecido, mais isso acontecia. 

Até que o senhor zé virou-se para mim e falou diretamente para mim, algo que não estava a espera... 

"Você minha filha, é nova, veio de tão longe encontrar o perto"


Estremeci um pouco por dentro, mas consegui responder um "é verdade", e fiquei assim. Olhei finalmente para os seus olhos, e procurava algo que me dissesse é mesmo uma entidade que está aqui, é mesmo sério isto, como posso ter a certeza... eram tantas perguntas na minha mente, e eu a tentar não pensar, estava apavorada que o senhor zé lesse a minha mente.. Mas não conseguia parar de pensar como poderia ter a certeza de estar mesmo uma entidade na minha frente...

E comecei a falar com o sr. Zé o nome, o que estava ali fazendo, até que ele se vira e do nada me diz que eu era a única que não estava a procura de macho para me sustentar. Fiquei perplexa não apenas pelas palavras, mas pela intensidade delas, pelo olhar, por tudo, parecia ali uma sensação diferente, mas ainda não estava convencida.

Respondi que realmente não procurava nada disso, não tinha intenção de ficar mais uma hora a falar de machos ou sequer de aspirantes a namorados ou assim... E quando menos esperava, a minha lingua destravou de tal maneira, e comecei a falar exatamente o que pensava. Que era super aborrecido estarem apenas a falar sobre homens e homens e homens... E o sr. Zé olhando para mim com meio sorriso me respondeu que era o que as pessoas ali presentes mais gostavam de saber, e sem conseguir travar a língua ainda sem qualquer controle, respondi que desperdício. 


domingo, 29 de abril de 2018

Começar o trilho em terras lusitanas

A primeira vez que fui convidada a assistir a um ebó, nem imaginava o que seria. Aliás foi a primeira vez que fui conversar presencialmente com o líder espiritual. 
O líder espiritual convidou-me eu prontamente aceitei. Na verdade nem imaginava o que era isso nem o que iria acontecer.  Ebó, eu só sentia uma curiosidade enorme com tudo o que se passava a minha volta.
Quando estava no quarto onde estava a ser preparado o ebó a uma cliente, tomei uma postura de estar mais resguardada na parte de trás. A observar vários grãos em pratos, velas, e outras coisas, e aproveitei e olhei em volta. Via vários vasos, potes, jarros, ferros, pregos, barros, tanta coisa diferente, mas ao mesmo tempo como se fosse familiar.

Olhei para a postura do líder espiritual com a cliente, percebi que ele observava-me, não sei o que procurava se era alguma reação, senti como se fosse uma espécie de teste. Estava mesmo descontraída e senti-me bem. Aliás, estava a sentir-me bem até que uma filha de santo da casa, abriu a porta e ficou com uma cara de.. nem sei explicar.. ficou com cara de quem chupou limão, e a dizer-me que eu não podia estar ali eu olhei para ela de cima abaixo, tinha um pano branco enrolado na cabeça, uma camisa branca, uma saia branca comprida, e uma cara de tudo menos boas vindas. Fora a mesma pessoa que me recebera à porta na primeira vez que entrei no terreiro (podem ler essa história no blog paralelo a este). O sacerdote sem olhar para ela diretamente, respondeu a primeira vez:

" Fui eu que a convidei..." 

Ora perante uma resposta dessas, e sendo uma autoridade, seria o suficiente para compreender que eu não entrei em estilo Tom Cruise - missão secreta... Eu tive Green Card para entrar...  não estava a cometer nenhum crime, porque aquela senhora a olhar para mim com um ar tão surpreendido e chocada. E comentou novamente que era um ebó... ao que desta vez, o sacerdote por um segundo, olhou na direção dessa senhora e com uma voz ríspida disse-lhe que se eu estava ali era porque ele autorizara. Desta vez meia ruborizada pediu desculpas, posou algo cor de laranja que vinha quente, e retirou-se, voltando em seguida com mais algum objeto que nem vi. 

Não entendi a postura dela, de nenhuma empatia, uma postura dura, e... a cara com um ar que não me causou uma vez mais boa impressão... mas pensei.. pode ser que nem todos os filhos sejam assim, e do sacerdote simpatizei muito com ele, portanto dar tempo a tempo e ver como será...

Foi feito o ato do ebó, e embora fosse a primeira vez que assistia eu não fiquei impressionada, eu não fiquei assustada.. na verdade porque ficaria assustada por haver ejé de um animal? Pelas músicas que cantavam? Não tinha razão nenhuma para essas reações, eu estava atenta e deslumbrada com tudo o que se estava a passar. E senti a concentração do sacerdote, a entrega ao momento que estava a acontecer.
Como é possível ser a primeira vez ao assistir algo como este acto e ser tão familiar.. tão natural...

A filha de santo do sacerdote sem qualquer dúvida alguma não foi com minha cara, sempre a olhar para mim com um ar que preferi ignorar..

Terminou o ritual, foi indicado a filha de santo para limpar  o que sobrara, e como a cliente já tinha finalizado, o sacerdote pode dar-me um pouco de atenção. 
Explicou-me que o ebó seria uma limpeza, onde seria o jogo a apurar que tipo de ebó a pessoa necessitava.

Logo aí aprendi que, existe mais do que um ebó diferente, e que há o famoso jogo que só tinha visto em telenovelas brasileiras, com os búzios a serem jogados numa mesa. Senti que foi uma explicação básica para enquadrar um pouco o cenário que assistira. 

Mas o sacerdote ter tido o cuidado, de embora básica ter dado essa explicação, foi algo que dei muito valor. 


  

sexta-feira, 27 de abril de 2018

O segundo contacto

Visitei a casa de uma amiga que conheci nesse mesmo ano, em 2015, numa cidade chamada Cubatão.
Ela não contava que eu aparecesse naquele momento, mas ficou feliz por me receber, e disse-me que o seu pai de santo iria visitar a casa dela, e que deveria estar a chegar dentro de minutos. Acrescentou que caso ele não me cumprimentasse para eu não estranhar porque ele fazia isso. E que na verdade nem era bem ele que vinha, mas era ele. Fiquei confusa, e tentei perceber qual a significado dessa frase, mas ela ficou um pouco reticente, depois de eu tanto insistir disse-me que vinha incorporado com uma entidade.
Achei que seria algo completamente normal, não achei que fosse acontecer algo, pensei o senhor deve vir mas pode não estar nos seus dias, e como não me conhece não irá cumprimentar-me. A inocência de quando não sabemos nada,  é algo que acho encantador. 

Não tive mais tempo de pensar na situação, em minutos chegou o pai de santo, acompanhado por um jovem que estava a ajudar-lo a entrar dentro de casa. Não entendi porque precisaria de ajuda para entrar, a casa não era de difícil acesso. Tinha um chapéu preto estranho, e vinha com os olhos fechados. Juro que pensei que talvez fosse cego.  A minha amiga foi receber o seu pai de santo pedindo benção e beijando a mão. Achei algo antigo, mas já tinha visto em novelas de época esse cumprimento, e por segundos pensei se teria que fazer igual, mas logo me lembrei que ele não iria cumprimentar-me.
Estava muito enganada...
O pai de santo perguntou a minha amiga quem eu era, ela respondeu que era uma amiga que vinha de Portugal, em dois segundos de olhos fechados sem eu entender como, ele estava ao meu lado, dando um abraço forte e disse-me "boa noite minha filha". Foi a sensação mais estranha que tive, as palavras ecoaram no meu ouvido, senti tontura, senti um mal estar, tentei sorrir de forma disfarçada e com um boa noite baixo, não estava em mim. Não estava a entender o que se passava. Lembro-me apenas de o ver a sorrir, e não conseguia entender como ele estava a ver-me se era cego!! Ainda disse-me algo mais, disse-me bem vinda ao seu país minha filha. Fiquei perplexa.. como ele saberia que eu nasci no Brasil... Foi muito confuso, o senhor andou  a visitar a casa da minha amiga, e eu nem consegui perceber o que ele estava a fazer. Eu não conseguia deixar de estar mal disposta.
O senhor foi embora, e comentei isso com a minha amiga. Que foi o abraço mais estranho que recebi, e ela disse que ele tinha visto algo em mim e puxou por aquilo que eu carrego.

Escusado será dizer que não entendi. Estava cheia de tonturas, a minha amiga deu-me um copo de água, e sem qualquer explicação senti cheiro a perfume e a charuto. Era um perfume doce e um cheiro de charuto forte, E olhava para todo lado e nada que justificasse esse cheiro. Quando contei a minha amiga, ela gargalhou. Tentei a convencer que estava a falar a sério, ela cada vez gargalhava mais.. Fiquei incomodada, até ela, depois de limpar algumas lágrimas, disse que era normal, pois estariam a fazer um trabalho de limpeza na sua casa e sobre o perfume era o que eu carregava. Quando o seu pai de santo abraçou-me ela disse que viu uma entidade feminina que parecia uma cigana bem bonita ou então uma pomba-gira.
Eu pensei para mim, uma pomba que? Mas, resolvi não perguntar mais. Ofereceu-me um colar e brincos com tom verde, e disse-me que seria para usar quando eu a recebesse. Pensei novamente para mim, vou receber visitas de alguém é? Mas quem é essa pessoa?
Fui para casa sem entender nada.

                                                         

sábado, 21 de abril de 2018

O primeiro contacto....


Andava eu por terras de Vera Cruz, em 2015, a passear à beira-mar e uma amiga nativa convidou-me a ir assistir uma "gira".  

Para mim até esse momento "gira" significava uma pessoa bonita, palavra muito utilizada na região norte de Portugal. Ou então o verbo girar, rodar. 

Não entendi toda a dimensão da palavra, e talvez pela minha expressão a minha amiga continuou a sua explicação. 


"Amiga, gira é para ir levar um passe na Umbanda."  

Mais confusa fiquei, um passe?? Bem deixei-me levar por ela, que extremamente entusiasmada fez-me ir até a praia. Fiquei surpresa, por ser na praia, na areia, no meio da natureza e não num espaço com telhado, cadeiras..

Fiquei curiosa com o que iria acontecer, à hora marcada chegaram 3 pessoas, todas vestidas de branco, e com uma espécie de tambor na mão. 
Rapidamente traçaram linhas no chão, e começaram a dar fichas metálicas com números. Fiquei com o número 5... 


Curioso nunca mais pensei nesta situação, número 5, tem uma representação espiritual bem importante na minha vida.. Talvez fosse mesmo um dos sinais de começar da caminhada. 

Bem voltando a história, eu estava a absorver tudo o que acontecia a minha volta.. várias pessoas sentadas no calçadão a espera de começar. Eu estava tranquila apesar de não saber o que iria acontecer. 

A minha amiga estava a falar muito e a garantir que eu iria gostar. Em pouco tempo vejo um espaço montado, riscos no chão, tambores, vários riscos na areia e começaram a cantar. 


Nunca tinha visto algo assim. Foi estranho por ser diferente mas foi muito bonito.


O único homem presente, vestido de branco, explicou-me a minha amiga que era o pai de santo do terreiro, começou a ajoelhar-se e a fazer gestos para o ar, e fez um som que eu não posso chamar de grito, não sei, foi um som,  nunca ouvira nada assim, e apontava para alguns lados, inclusive para o mar. 


Uma senhora vestida também de branco, fez algo similar depois de abraçar esse senhor. A minha amiga expicou-me que era filha do pai de santo e que também dava consultas. E estavam os dois de olhos fechados, e cada um ocupava um lado do retângulo enorme desenhado no chão. 

Vem a terceira senhora ter conosco dar folhas brancas e para colocarmos ali os nossos desejos. Fiquei confusa como iria escrever se não tinha caneta, o que a minha amiga, rapidamente me disse que era com o pensamento, e que depois de entrar no "terreiro" ou colocava em água ou enterrava o papel na areia. Quando chegou nessa altura acabei por colocar na água.


Uma experiência nova, e eu sou bem aberta, sem qualquer preconceito, agradeci a explicação e fiquei matutando na minha vida, refletindo sobre o que eu queria. A olhar para o papel e focar com todas as minhas forças, eu pedi que queria encontrar o meu caminho e ser feliz. Nunca imaginei que essas palavras seriam tão fortemente pedidas e muito menos tão fortemente atendidas, tempos mais tarde.


Dobrei o papel conforme a minha amiga explicava, e fomos para a fila do famoso "passe". Nem entendia porque essa palavra ou o que iria acontecer. Estava a senhora de branco com uma espécie de incensório na mão, só tinha visto isso em criança, em algumas cerimónias da igreja católica, e exalava um cheiro tão agradável, e estava a passar no corpo das pessoas. 


Estava descalça conforme o exigido, algo que tenho como prática corrente, adoro andar descalça por todo lado. 


Quando chegou a minha vez, a senhora passou esse objeto do lado do meu corpo, pediu-me para virar de costas, e foi me defumando. Talvez não se essa a palavra correta, mas assim o fez, e deixei-me envolver com a energia. Senti-me tranquila, em paz. 


De seguida tinha que entrar com o pé direito dentro das linhas, e dirigir-me a quem estivesse livre, tive a sorte de ir ter com o senhor, que descobri que era o pai de santo. 

Digo sorte, porque pensei para mim, já que estou a experimentar, quero experimentar a séria e ir ter com o chefe e entender isto. 

Pensei eu, porque na verdade, não entendi foi absolutamente nada. Só se que sentia-me normal ao ir ter com ele, super em paz, super na boa, e mal ele me abraçou desabei num pranto. 

Na verdade, não foi só num pranto, foi baba e ranho, não conseguia fazer mais nada sem ser chorar, cheguei a soluçar em alto e bom som, sem saber de onde vinha, o que se estava a passar, eu deixei de ser uma pessoa racional, eu era naquele momento, abraçada naquele pai de santo um fluente de emoções, sentimentos, não sei quanto tempo estivemos abraçados, perdi a noção do tempo e do espaço. Nesse momento foi como se mais nada importasse, mais nada existisse. 


O pai de santo estava ali e não estava, era ele e não era, sentia um abraço de um ser humano, mas sentia algo mais, uma energia diferente, tocou-me fundo na alma e no coração. Falou-me no ouvido com uma voz rouca:


"Minha filha confie que tudo vai dar certo, você está encontrando o seu caminho. "



Pensam que isso fez com que eu ficasse mais calma? Ainda deu-me mais para o pranto, não conseguia parar de chorar, não sabia de onde vinha tanta lágrima, mas elas não paravam... 

O pai de santo afastou-se e com um charuto na boca, colocou-me uns fios a volta do pescoço, passou no meu corpo com outras coisas, eu não consegui mais entender o que era, comecei a ficar cada vez mais confusa, como se estivesse a ir para dentro de mim para algum lugar, não sei o que ele fez mais, só sei que eu continuava a chorar, até que voltou a abraçar-me e disse-me:


 "Minha filha você tem um caminho muito bonito, tudo vai dar certo." 




Não sei quanto tempo mais ficamos abraçados, foi muito emocional.



Quando cheguei ao paredão, estava super confusa, tonta, a minha amiga recebeu-me com um "é maravilhoso né" e falou imenso, mas eu não conseguia ouvir e nem absorver uma só palavra. Tadinha ela depois desistiu porque deve ter achado que eu não estava ligando nenhuma, mas eu tentava e não conseguia.. 
Os meus olhos desfocavam o que estava na minha frente e estava em modo ausente. Só tive um pouco mais de consciência de mim mesmo quando já todas as pessoas tinham sido atendidas.. Portanto acredito que devo ter demorado um pouco a ficar normal, e ouvi a voz do pai de santo a agradecer a todos por terem vindo ao terreiro dele e se estava todo mundo bem, e insistiu nessa pergunta mais 3 vezes e olhava diretamente para mim e eu não consegui falar, eu não consegui dizer hey eu não estou lá muito normal, queria mas a minha boca não mexia, a minha lingua não destravava. E acabei por olhar para o chão.. 



Depois de perguntar a última vez e eu não conseguir dizer nada, terminou e eu a minha amiga fomos andar um pouco a pé.. Nessa altura não estava a sentir-me mal, mas também não estava bem. 

No final do passeio, voltei para a casa onde estava hospedada... e foi algo estranho... sentei no sofá fiquei durante algum tempo a ver se a tontura passava, levantei e feita maluca girava girava sobre mim mesmo e sentia as pernas moles a falhar, deitei no sofá maior e dormi como uma pedra. 

Na manhã seguinte estava bem melhor. Como se nada tivesse passado...


   Praia de Santos, Sp, Brasil.