domingo, 29 de abril de 2018

Começar o trilho em terras lusitanas

A primeira vez que fui convidada a assistir a um ebó, nem imaginava o que seria. Aliás foi a primeira vez que fui conversar presencialmente com o líder espiritual. 
O líder espiritual convidou-me eu prontamente aceitei. Na verdade nem imaginava o que era isso nem o que iria acontecer.  Ebó, eu só sentia uma curiosidade enorme com tudo o que se passava a minha volta.
Quando estava no quarto onde estava a ser preparado o ebó a uma cliente, tomei uma postura de estar mais resguardada na parte de trás. A observar vários grãos em pratos, velas, e outras coisas, e aproveitei e olhei em volta. Via vários vasos, potes, jarros, ferros, pregos, barros, tanta coisa diferente, mas ao mesmo tempo como se fosse familiar.

Olhei para a postura do líder espiritual com a cliente, percebi que ele observava-me, não sei o que procurava se era alguma reação, senti como se fosse uma espécie de teste. Estava mesmo descontraída e senti-me bem. Aliás, estava a sentir-me bem até que uma filha de santo da casa, abriu a porta e ficou com uma cara de.. nem sei explicar.. ficou com cara de quem chupou limão, e a dizer-me que eu não podia estar ali eu olhei para ela de cima abaixo, tinha um pano branco enrolado na cabeça, uma camisa branca, uma saia branca comprida, e uma cara de tudo menos boas vindas. Fora a mesma pessoa que me recebera à porta na primeira vez que entrei no terreiro (podem ler essa história no blog paralelo a este). O sacerdote sem olhar para ela diretamente, respondeu a primeira vez:

" Fui eu que a convidei..." 

Ora perante uma resposta dessas, e sendo uma autoridade, seria o suficiente para compreender que eu não entrei em estilo Tom Cruise - missão secreta... Eu tive Green Card para entrar...  não estava a cometer nenhum crime, porque aquela senhora a olhar para mim com um ar tão surpreendido e chocada. E comentou novamente que era um ebó... ao que desta vez, o sacerdote por um segundo, olhou na direção dessa senhora e com uma voz ríspida disse-lhe que se eu estava ali era porque ele autorizara. Desta vez meia ruborizada pediu desculpas, posou algo cor de laranja que vinha quente, e retirou-se, voltando em seguida com mais algum objeto que nem vi. 

Não entendi a postura dela, de nenhuma empatia, uma postura dura, e... a cara com um ar que não me causou uma vez mais boa impressão... mas pensei.. pode ser que nem todos os filhos sejam assim, e do sacerdote simpatizei muito com ele, portanto dar tempo a tempo e ver como será...

Foi feito o ato do ebó, e embora fosse a primeira vez que assistia eu não fiquei impressionada, eu não fiquei assustada.. na verdade porque ficaria assustada por haver ejé de um animal? Pelas músicas que cantavam? Não tinha razão nenhuma para essas reações, eu estava atenta e deslumbrada com tudo o que se estava a passar. E senti a concentração do sacerdote, a entrega ao momento que estava a acontecer.
Como é possível ser a primeira vez ao assistir algo como este acto e ser tão familiar.. tão natural...

A filha de santo do sacerdote sem qualquer dúvida alguma não foi com minha cara, sempre a olhar para mim com um ar que preferi ignorar..

Terminou o ritual, foi indicado a filha de santo para limpar  o que sobrara, e como a cliente já tinha finalizado, o sacerdote pode dar-me um pouco de atenção. 
Explicou-me que o ebó seria uma limpeza, onde seria o jogo a apurar que tipo de ebó a pessoa necessitava.

Logo aí aprendi que, existe mais do que um ebó diferente, e que há o famoso jogo que só tinha visto em telenovelas brasileiras, com os búzios a serem jogados numa mesa. Senti que foi uma explicação básica para enquadrar um pouco o cenário que assistira. 

Mas o sacerdote ter tido o cuidado, de embora básica ter dado essa explicação, foi algo que dei muito valor. 


  

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