sábado, 21 de abril de 2018

O primeiro contacto....


Andava eu por terras de Vera Cruz, em 2015, a passear à beira-mar e uma amiga nativa convidou-me a ir assistir uma "gira".  

Para mim até esse momento "gira" significava uma pessoa bonita, palavra muito utilizada na região norte de Portugal. Ou então o verbo girar, rodar. 

Não entendi toda a dimensão da palavra, e talvez pela minha expressão a minha amiga continuou a sua explicação. 


"Amiga, gira é para ir levar um passe na Umbanda."  

Mais confusa fiquei, um passe?? Bem deixei-me levar por ela, que extremamente entusiasmada fez-me ir até a praia. Fiquei surpresa, por ser na praia, na areia, no meio da natureza e não num espaço com telhado, cadeiras..

Fiquei curiosa com o que iria acontecer, à hora marcada chegaram 3 pessoas, todas vestidas de branco, e com uma espécie de tambor na mão. 
Rapidamente traçaram linhas no chão, e começaram a dar fichas metálicas com números. Fiquei com o número 5... 


Curioso nunca mais pensei nesta situação, número 5, tem uma representação espiritual bem importante na minha vida.. Talvez fosse mesmo um dos sinais de começar da caminhada. 

Bem voltando a história, eu estava a absorver tudo o que acontecia a minha volta.. várias pessoas sentadas no calçadão a espera de começar. Eu estava tranquila apesar de não saber o que iria acontecer. 

A minha amiga estava a falar muito e a garantir que eu iria gostar. Em pouco tempo vejo um espaço montado, riscos no chão, tambores, vários riscos na areia e começaram a cantar. 


Nunca tinha visto algo assim. Foi estranho por ser diferente mas foi muito bonito.


O único homem presente, vestido de branco, explicou-me a minha amiga que era o pai de santo do terreiro, começou a ajoelhar-se e a fazer gestos para o ar, e fez um som que eu não posso chamar de grito, não sei, foi um som,  nunca ouvira nada assim, e apontava para alguns lados, inclusive para o mar. 


Uma senhora vestida também de branco, fez algo similar depois de abraçar esse senhor. A minha amiga expicou-me que era filha do pai de santo e que também dava consultas. E estavam os dois de olhos fechados, e cada um ocupava um lado do retângulo enorme desenhado no chão. 

Vem a terceira senhora ter conosco dar folhas brancas e para colocarmos ali os nossos desejos. Fiquei confusa como iria escrever se não tinha caneta, o que a minha amiga, rapidamente me disse que era com o pensamento, e que depois de entrar no "terreiro" ou colocava em água ou enterrava o papel na areia. Quando chegou nessa altura acabei por colocar na água.


Uma experiência nova, e eu sou bem aberta, sem qualquer preconceito, agradeci a explicação e fiquei matutando na minha vida, refletindo sobre o que eu queria. A olhar para o papel e focar com todas as minhas forças, eu pedi que queria encontrar o meu caminho e ser feliz. Nunca imaginei que essas palavras seriam tão fortemente pedidas e muito menos tão fortemente atendidas, tempos mais tarde.


Dobrei o papel conforme a minha amiga explicava, e fomos para a fila do famoso "passe". Nem entendia porque essa palavra ou o que iria acontecer. Estava a senhora de branco com uma espécie de incensório na mão, só tinha visto isso em criança, em algumas cerimónias da igreja católica, e exalava um cheiro tão agradável, e estava a passar no corpo das pessoas. 


Estava descalça conforme o exigido, algo que tenho como prática corrente, adoro andar descalça por todo lado. 


Quando chegou a minha vez, a senhora passou esse objeto do lado do meu corpo, pediu-me para virar de costas, e foi me defumando. Talvez não se essa a palavra correta, mas assim o fez, e deixei-me envolver com a energia. Senti-me tranquila, em paz. 


De seguida tinha que entrar com o pé direito dentro das linhas, e dirigir-me a quem estivesse livre, tive a sorte de ir ter com o senhor, que descobri que era o pai de santo. 

Digo sorte, porque pensei para mim, já que estou a experimentar, quero experimentar a séria e ir ter com o chefe e entender isto. 

Pensei eu, porque na verdade, não entendi foi absolutamente nada. Só se que sentia-me normal ao ir ter com ele, super em paz, super na boa, e mal ele me abraçou desabei num pranto. 

Na verdade, não foi só num pranto, foi baba e ranho, não conseguia fazer mais nada sem ser chorar, cheguei a soluçar em alto e bom som, sem saber de onde vinha, o que se estava a passar, eu deixei de ser uma pessoa racional, eu era naquele momento, abraçada naquele pai de santo um fluente de emoções, sentimentos, não sei quanto tempo estivemos abraçados, perdi a noção do tempo e do espaço. Nesse momento foi como se mais nada importasse, mais nada existisse. 


O pai de santo estava ali e não estava, era ele e não era, sentia um abraço de um ser humano, mas sentia algo mais, uma energia diferente, tocou-me fundo na alma e no coração. Falou-me no ouvido com uma voz rouca:


"Minha filha confie que tudo vai dar certo, você está encontrando o seu caminho. "



Pensam que isso fez com que eu ficasse mais calma? Ainda deu-me mais para o pranto, não conseguia parar de chorar, não sabia de onde vinha tanta lágrima, mas elas não paravam... 

O pai de santo afastou-se e com um charuto na boca, colocou-me uns fios a volta do pescoço, passou no meu corpo com outras coisas, eu não consegui mais entender o que era, comecei a ficar cada vez mais confusa, como se estivesse a ir para dentro de mim para algum lugar, não sei o que ele fez mais, só sei que eu continuava a chorar, até que voltou a abraçar-me e disse-me:


 "Minha filha você tem um caminho muito bonito, tudo vai dar certo." 




Não sei quanto tempo mais ficamos abraçados, foi muito emocional.



Quando cheguei ao paredão, estava super confusa, tonta, a minha amiga recebeu-me com um "é maravilhoso né" e falou imenso, mas eu não conseguia ouvir e nem absorver uma só palavra. Tadinha ela depois desistiu porque deve ter achado que eu não estava ligando nenhuma, mas eu tentava e não conseguia.. 
Os meus olhos desfocavam o que estava na minha frente e estava em modo ausente. Só tive um pouco mais de consciência de mim mesmo quando já todas as pessoas tinham sido atendidas.. Portanto acredito que devo ter demorado um pouco a ficar normal, e ouvi a voz do pai de santo a agradecer a todos por terem vindo ao terreiro dele e se estava todo mundo bem, e insistiu nessa pergunta mais 3 vezes e olhava diretamente para mim e eu não consegui falar, eu não consegui dizer hey eu não estou lá muito normal, queria mas a minha boca não mexia, a minha lingua não destravava. E acabei por olhar para o chão.. 



Depois de perguntar a última vez e eu não conseguir dizer nada, terminou e eu a minha amiga fomos andar um pouco a pé.. Nessa altura não estava a sentir-me mal, mas também não estava bem. 

No final do passeio, voltei para a casa onde estava hospedada... e foi algo estranho... sentei no sofá fiquei durante algum tempo a ver se a tontura passava, levantei e feita maluca girava girava sobre mim mesmo e sentia as pernas moles a falhar, deitei no sofá maior e dormi como uma pedra. 

Na manhã seguinte estava bem melhor. Como se nada tivesse passado...


   Praia de Santos, Sp, Brasil.
                                           

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